Com realidade virtual, visitante pode conhecer e sentir aldeia indígena do Pará


Cápsulas simulando a visita a uma aldeia do povo Munduruku, no Pará, com realidade virtual e estímulos táteis, auditivos e olfativos compõem a mostra “Experiência Munduruku”, que será realizada pelo Greenpeace, a partir desta sexta-feira (2), no Centro Cultural Correios São Paulo (CCCSP).
Em uma jornada pelo coração da Amazônia, será possível sentir a floresta e também aprender sobre a vida dos povos que vivem nela. Guiado pela voz do cacique Juarez Saw Munduruku, o visitante irá percorrer as águas do rio Tapajós, no Pará, e conhecer o modo de vida do povo Munduruku, podendo compreender sua relação com as matas e os rios.
A criação da exposição foi liderada pela britânica Grace Boyle, responsável pela construção do projeto Feelies – que busca gerar empatia a causas por meio da imersão em Realidade Virtual. O trabalho foi desenvolvido por Charles Michel, residente no Crossmodal Research Laboratory, da Universidade de Oxford, principal centro de ciência sensorial no mundo.
“Experiência Munduruku” é gratuita, dura cerca de 15 minutos e ficará aberta ao público em curta temporada, até o dia 25 de junho. O Centro Cultural Correios São Paulo está situado na Avenida São João, s/nº, Vale do Anhangabaú. As visitas podem ser agendadas de terça a domingo, das 11h às 17h. A entrada é franca e os agendamentos podem ser feitos pelo endereço: https://www.sympla.com.br/greenpeacebrasil.

A cura espiritual guarani

 
O pajé Laurindo Tupã tem 67 anos e vive na Aldeia Brilho do Sol, em São Bernardo do Campo (23 km de São Paulo), uma área a que se chega apenas por balsa, cruzando as águas da colossal represa Billings, um dos mais importantes reservatórios hídricos da região metropolitana de São Paulo. Há 42 anos, devota-se a curas espirituais em aldeias guarani e é o mais requisitado pajé do Brasil, qualificação que, embora honrosa, impõe-lhe a missão de confrontar um severo déficit de pajés guarani. Missão dura: o pajé percorre nada menos que o país inteiro realizando sessões de cura espiritual e, assim, preservando a cultura de seu povo.
 
No dia 27 de maio, Laurindo desembarcou em Aracruz, norte do Estado. Até a última quarta-feira (31), promoveu 20 sessões de cura espiritual nas aldeias Piraquê-Açu e Boa Esperança, em que tratou 200 pessoas, a maioria jovens e mulheres. Não encerrava o dia sem antes discursar em defesa da vida indígena; no Espírito Santo, celebrou a memória de Tatantin Rua Retée, a xamã que quatro décadas atrás achou ter encontrado a Terra Sem Males em Santa Cruz, Aracruz, mas reconheceu, tempos depois, estar enganada.
 
A tradição guarani oferece tratamento espiritual para males físicos. Explicando tosca e rasteiramente: o pajé trabalha as energias corporais do enfermo com o auxílio de um cachimbo de madeira com ervas medicinais, que traga profundamente para em seguida devolver uma fumaça grossa com a qual envolve a mulher ou homem de torso nu sentado a sua frente.  A fumaça é presença inexorável: é o que afugenta os maus espíritos. Depois, o pajé procede um apalpamento dos pontos energéticos do corpo. 
 
Esse ritual intenso e poderoso é realizado no Opu (templo religioso), uma casinha penumbrosa com telhado duas águas forrado com folhas de palmeira, chão de terra batida e paredes de estuque. O acesso se dá apenas por uma porta; uma outra, direcionada para o nascer do sol, permanece fechada junto com a janela ao lado para evitar a entrada de maus espíritos. 
 
A um canto, mulheres cuidam das cepas de madeira que queimam lentamente. Trata-se de um dos principais elementos da sessão: produzem o fogo que alimenta as ervas do cachimbo do pajé. Noutro canto, um grupo em pé executa cânticos guarani com rabeca, violão, tambores, maracás e bastões de bambu batidos contra o chão por mulheres, que, dançando, marcam o compasso curto da música. 
 
Espalhados por todo o espaço, homens e mulheres em busca de cura esperam a vez sentados, imersos nesse cenário sensorial de fumaça, calor e música.
 
Uma banqueta repousada de frente para a porta fechada do Opu é o centro gravitacional do local. Tronco nu, uma velha guarani dirige-se tropegamente em direção à banqueta. Mesmo à pouca luz, é possível notar o inchaço severo que domina-lhe um terço da canela, logo abaixo do joelho. Com dificuldade, a velha guarani acomoda-se nele, voltada para a porta cerrada. Transmite calma. 
 
O pajé se aproxima, detém-se à sua frente por alguns segundos e começa a rodea-la, tragando profundamente o cachimbo e lançando-lhe grossas e sucessivas baforadas sobre a cabeça. Dedica-se um bom tempo a esse ritual preparatório para o corpo receber as energias. Cachimbo na boca, tragando as ervas e liberando fumaça, cinge toda a fronte da velha índia numa nuvem suave que, no entanto, demora a dissipar-se.
 


Essa prática medicinal guarani inicia o procedimento preparatório para cura espiritual sempre pela cabeça, o centro sensorial e cognitivo humano, derramando fumaça sobre os sete orifícios, as sete portas da percepção humana. O pajé só empreende os toques corporais, a exploração dos pontos energéticos do corpo, após despejar robustos blocos de fumaça medicinal sobre a cabeça do enfermo. 
 
O produto da combustão das ervas do cachimbo conduz o espírito para a cura. É o primeiro campo de exploração. O segundo campo são os toques corporais nos pontos de energia, que irão, digamos, desatar os nós e franquear os canais do corpo para a cura espiritual. Um terceiro procedimento não guarda lógica: às vezes o pajé lança baforadas na porta fechada. É que, na condição de curador espiritual, ele identifica a presença de espíritos maus que querem impedir o processo de cura e ameaçam entrar pelo acesso voltado para o nascer do sol. 
 
O parâmetro, aqui, não é apenas o fisiológico, as manifestações mais imediatas de perturbações (dores ou doenças). Do biológico ao espiritual, o pajé desbrava toda a composição humana e busca restabelecer o equilíbrio por um ou outro motivo desestabilizado.
 
O pajé, no entanto, reconhece as limitações da cura espiritual, efeito de transformações específicas no modo de vida indígena. Este foi um dos temas do discurso com que encerrou o primeiro dia de sessões de cura. 
 
Laurindo tomou a própria experiência guarani como exemplo, lembrando que, hoje, praticamente não há aldeias que não sejam vizinhas de grandes fazendas ou de perímetros urbanos, uma experiência que, como se sabe, reconfigurou marcantemente a cultura indígena. Incluindo a produção de doenças.
 
O pajé reportou que, até pouco tempo atrás, curava os índios de doenças produzidas pela vida na floresta - uma picada de cobra, uma queda na mata, um arranhão. Perturbações típicas do habitat indígena. O contato com o homem branco contaminou a nosologia indígena e produziu enfermidades para as quais a cura espiritual guarani é incontornavelmente ineficaz. 
 
A solução, aqui, disse o pajé sem titubeios, é mandar o enfermo para o hospital - coisa que ele mesmo faz.
 
No Opu, o pajé e a índia estão imersos em fumaça, absortos naquele ritual de cura. A música preenche o ambiente; a marcação certeira dos bastões de bambu batidos contra o chão ressoa pelo ar. A rabeca e o violão conferem um contraponto melódico ao acompanhamento percussivo dos tambores, maracás e bambus. As mulheres continuam dançando e cantando.
 


Após envolver a cabeça morena da velha índia, o pajé inicia o tratamento corporal, pressionando pontos específicos do torno da mulher onde se concentram as energias corporais. Então, se agachou em frente à índia, esticou a perna inchada e procedeu o ato mais impressionante daquele primeiro dia ao aproximar o rosto, escancarar os dentes e abocanhar com vigor o membro enfermo. 
 
Preservou-se naquela posição por alguns minutos, a boca afixada na perna inchada, o pescoço imóvel. Notava-se, contudo, um pequeno movimento da garganta do pajé, como se ele operasse a drenagem do membro. 
 
Nenhum esgar desestabilizou a fronte serena da velha índia. Quando o pajé se reergueu, o inchaço cedera e, a perna, readquirido proporções aceitáveis. Em seguida, o pajé levou a mão à boca, um gesto mais impressionante, que se repetiu na maioria dos procedimentos. Com os dedos em forma de pinça, ele retira da língua o produto da cura: um minúsculo material arredondado na forma e avermelhado na cor. 
 
Não há diagnóstico prévio. O pajé vê a doença. Quando atinge o enfermo com a fumaça e os toques corporais, a sensibilidade indígena aflora e se manifesta na visão da moléstia que acomete a pessoa sentada na banqueta. 
 
Este é um ponto interessante. Como ele trata de qualquer pessoa que entre no Opu, o que inclui o homem branco, as respostas que obtém, as formas pelas quais sua sensibilidade terapêutica se manifesta, são divergentes. E a linha fronteiriça é costumeiramente cultural: quando trata o índio, as respostas são imediatas; quando o enfermo é o não-índio, não raro demoram, exigindo mais sessões.
 
A postura impassível da índia ante uma arcada dentária cravada numa fonte de dor e sofrimento físico fornece o elemento vital que separa índios e não-índios no processo de cura espiritual: a entrega, a confiante submissão física e psicológica aos cuidados de uma tradição milenar. Os índios abandonam-se ao pajé; os não-índios, digamos, capitulam. 
 
É que o índio em estado primitivo buscam a cura espiritual, sabem que o tratamento não se restringe apenas ao ataque a manifestações físicas. A xamã Tatantin Rua Retée pereceu aos 104 anos sem nunca ter ingerido um remédio farmacêutico. O índios se entrega porque sabe que as duas partes precisam estar integradas, um alinhamento, contudo, não observado com o não-índio.
 
Geralmente o pajé não obtém êxito na cura espiritual do não-índio numa primeira sessão. O processo de entrega do não-índio obedece a outro ritmo, mais lento, por isso que, antes, ele capitula ao pajé. Se a construção da confiança não é imediata, o pajé não obtém a cura na primeira sessão, como geralmente ocorre. Daí a recomendação de mais sessões.  
 
Além de alertar para os desafios da vida indígena, o discurso de encerramento do daquele primeiro dia de curas espirituais emocionou ao exaltar a memória de Tatantin Rua Retée, a quem chamou de figura magistral, destacando, sobretudo, que, mesmo não tendo encontrado a Terra Sem Males, a xamã tornou-se um espírito presente e inseparável da vida dos índios. O único cachimbo de argila no Opu pertencera à xamã e reforçou a presença dela.
 
Na virada dos anos 60 para os 70, Tatantin conduziu seu grupo, oriundo da República Guarani, constituída por jesuítas numa vasta área que abrangia territórios do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, desde o Rio Grande do Sul pelo litoral brasileiro em busca da Terra Sem Males. Um dos traços mais fortes da cultura guarani é a crença de que eles estão de passagem neste planeta, a caminho desse local idílico e abençoado, à procura do qual se puseram após a destruição da república por Espanha e Portugal. 
 
Suspeitou tê-la encontrado quando o grupo atravessava a foz do Rio Piraquê-Açu, em Santa Cruz. Seis quilômetros depois encontraram os Tupinikim e lá se estabeleceram; a xamã considerou que havia enfim encontrado à Terra Sem Males. Anos mais tarde, os eucaliptos e os interesses econômicos da então Aracruz Celulose (hoje Fíbria) os expulsaram. Foram para Guaparari, mas voltaram para a Aracruz e lá estão até hoje.
 
Tatantin viveu por 104 anos e morreu no Espírito Santo; foi enterrada no cemitério de Santa Cruz. Pouco antes de sua morte, ela, por situações que identificava como uma xamã, como a morte prematura de algumas crianças, e outros episódios que ocorreram, a levaram à conclusão de que tinha errado ao apontar a região como o local da Terra Sem Males.
 


Ao exaltar a vida e trajetória da xamã, o discurso de encerramento do pajé pode ser interpretado como um chamado enérgico em defesa da vida indígena. Ali o político e o religioso se entremearam ao rememorar o passado guarani, seus xamãs e ancestrais.
 
Uma celebração musical encerrou o primeiro dia de cura espiritual do pajé Laurindo Tupã em Aracruz. Ele empunhou um violão, voltou-se para a porta fechada do Opu e iniciou uma música animada, enquanto homens e mulheres o reverenciavam com a cabeça. Era especial a satisfação dos jovens, presença significativa no local: sinal auspicioso de que as tradições indígenas terão continuidade.
 
Mas nem tudo são alegrias. O pajé Laurindo Tupã identificou que as aldeias manifestam muitas doenças, razão pela qual disse que deve voltar para novas sessões de cura espiritual em agosto.

Vídeo mostra momento em que caminhão tomba próximo à barragem de José Boiteux

Motorista tentou atravessar uma área alagada e chegou a se jogar do veículo


Enquanto índios e autoridades negociavam o acesso de técnicos da Defesa Civil à barragem de José Boiteux, na última sexta-feira, um acidente a poucos metros do local chamou a atenção. Em um ponto que facilmente se alaga quando há chuva mais intensa, um caminhoneiro tentou passar com seu veículo, porém sem sucesso. Antes que o caminhão tombasse, o motorista pula para fora. 

O acidente foi todo filmado por um colega de trabalho do condutor.

Segundo o cacique presidente das aldeias, Brasílio Pripra, esse caminho é essencial para a comunidade indígena, principalmente por conta da passagem do ônibus escolar. É justamente por fatos como este que os índios reivindicam uma ponte no local, para evitar empecilhos sempre que há chuva mais forte na região da barragem.

– E se fosse o ônibus com as nossas crianças em vez do caminhão? – questiona o cacique.

VEJA O VÍDEO:

Índios ensinam como salvar língua quase extinta

A forma de produção do material didático e a aplicação dele em sala de aula inspira outras iniciativas como a dos Apiakás, que querem evitar a extinção de sua língua materna. (Foto: Luciano Justiniano)A forma de produção do material didático e a aplicação dele em sala de aula inspira outras iniciativas como a dos Apiakás, que querem evitar a extinção de sua língua materna. (Foto: Luciano Justiniano)
“Meu povo tem uma história muito triste, em relação à língua. No passado meu povo foi muito massacrado e proibido de falar a língua. Da nossa língua, hoje, nós só temos dois falantes”. O desabafo é do professor Raynney Datxe, indígena da etnia Apiaká da região amazônica, no norte de Mato Grosso.
O povo dele não é o único a sofrer o massacre cultural. Na semana que passou, o professor veio junto com uma comitiva de educadores Apiaká a Miranda para aprender como preservar o pouco que restou da língua.
No Estado, a comitiva acompanhou o trabalho do Ipedi (Instituto de Pesquisa da Diversidade Intercultural) no resgate da língua e da cultura dos índios terena das oito aldeias de Miranda. Projeto daqui que já recebeu diversos prêmios nacionais por promover a preservação da língua terena, já em extinção.
Visitantes receberam exemplares do livro Kalivono e conheceram as práticas pedagógicas aplicadas em sala de aula.  (Foto: Luciano Justiniano)Visitantes receberam exemplares do livro Kalivono e conheceram as práticas pedagógicas aplicadas em sala de aula. (Foto: Luciano Justiniano)
A tecnologia criada pelo Instituto consiste na na produção de material didático para educação infantil e alfabetização, tanto em português quanto em terena e pautados na cultura local.
O mesmo pode ser reaplicado para ajudar a salvar outras línguas indígenas em extinção no Brasil, como a língua dos Apiakás. 
“Nosso objetivo na aldeia Babaçú, no município de Miranda, foi de conhecer como é que foi desenvolvido este projeto, porque no futuro nós queremos também fazer o mesmo”, afirma o professor Raynney Datxe.

Associação de Mulheres Indígenas do Jardim Noroeste Estrela do Amanhã, que desenvolve trabalhos em busca de resgatar a cultura terena, com objetivo de mudar a realidade das famílias.

Dalva de Almeida Cáceres tem 40 anos, nasceu e cresceu na aldeia Ypegue, em Aquidauana. De origem terena, chegou em Campo Grande há 8 anos em busca de uma vida mais digna para sua família, mas nada é fácil para quem é indígena em Mato Grosso do Sul.
Dalva é o retrato da mulher brasileira, que apesar de fazer história onde vive, narra o que resta para elas quando o assunto é trabalho e igualdade social. (Foto: Alcides Neto)Dalva é o retrato da mulher brasileira, que apesar de fazer história onde vive, narra o que resta para elas quando o assunto é trabalho e igualdade social. (Foto: Alcides Neto)
“Ninguém aqui consegue emprego em shopping”, diz a mulher que há 8 anos criou uma associação em um barraco debaixo de uma árvore na comunidade Estrela do Amanhã, no bairro Jardim Noroeste.
Dalva é o retrato da mulher brasileira, que apesar de fazer história onde vive, narra o que resta para elas quando o assunto é trabalho e igualdade social. Nem o Ensino Médio completo serviu de chance para conseguir emprego em lugares que não sejam a cozinha ou a faxina.
E nem é preciso tirar muitas palavras de Dalva para entender a dura relação com o preconceito, onde a cor e a etnia têm peso na hora de conseguir um emprego. “Desde que cheguei aqui só consegui na faxina, hoje estou na cozinha, mas é assim com todas as outras mulheres indígenas”, afirma.
A mesma dificuldade é enfrentada por outras 65 famílias da etnia terena que vivem sob barracos desde que chegaram na região em busca de moradia.
Por isso, Dalva lutou para erguer o barraco, sede da Associação de Mulheres Indígenas do Jardim Noroeste Estrela do Amanhã, que desenvolve trabalhos em busca de resgatar a cultura terena, com objetivo de mudar a realidade das famílias.
Sem nenhuma ajuda do poder público, são as mulheres que ensinam o artesanato com argila e também a produção de pães. Mas sem recurso, falta material e forno para continuar o trabalho. “Não conseguimos encontrar argila por aqui, temos que buscar na aldeia, mas ninguém tem locomoção. A gente instituiu o curso justamente para que as mulheres sobrevivam do artesanato”, explica Dalva.
Entre as mulheres que vivem no bairro, Dalva tem um jeito tímido, mas é bem articulada. Na cidade conseguiu concluir a escola, mas lamenta ter abandonado a universidade. Apesar da distância do diploma, ela dá graças a Deus pelos filhos estarem trilhando um caminho diferente. Um deles tem bolsa em uma faculdade particular de Campo Grande.
Associação precisa de recursos para continuar os trabalhos. (Foto: Alcides Neto)Associação precisa de recursos para continuar os trabalhos. (Foto: Alcides Neto)
“Fiz o Ensino Médio completo, comecei a cursar História, mas ficava difícil trabalhar na faxina o dia todo, cuidar do nosso barraco e ir pra faculdade que fica do outro lado da cidade, toda noite. Por isso, eu luto pelos meus filhos”, desabafa.
Ser índio em Campo Grande é um desafio para quem tenta não perder a própria identidade, explica Dalva. “Muitos índios que chegam sozinhos na cidade não conseguem nem se expressar. Quando chegamos aqui, as pessoas acham que a gente tem que deixar de ser índio. Mas a gente só quer uma vida melhor, e tenta manter a nossa cultura”, reforça.
Até o jeito de viver é motivo para olhares tortos, comenta. “A gente não usa maquiagem, não pinta o cabelo, isso não é da nossa cultura. Mas aqui na cidade muita gente tem que se habituar a vida do branco. Imagina se a gente vai ao supermercado com os mesmos trajes que usamos na aldeia”, diz.
Para fortalecer e unir a comunidade em busca melhorias, Dalva pensou na associação. O nome Estrelas do Amanhã surgiu pela maneira como tudo começou. Sem cobertura e energia elétrica, há 8 anos as mulheres se reuniam debaixo da árvore sob a luz das estrelas para discutirem soluções para a vida dão difícil. 
Agora, o sonho das mulheres indígenas é pela conquista de uma moradia digna, sempre insistindo para que a cultura não seja apagada. "Precisamos de apoio e recursos para continuar com os nossos projetos. Um deles é fortalecer a língua terena. A maioria dos indígenas, inclusive eu, não sabe mais falar a própria língua. E isso faz parte da gente", finaliza.



Créditos:campograndenews

'Z - A cidade perdida' mostra diálogo entre colonizadores britânicos e indígenas

Percy Fawcett é um explorador que defende os índios em 'Z - A cidade perdida'

Estamos no início do século 20 e os exploradores britânicos Percy Fawcett (Charlie Hunnam), Henry Costin (Robert Pattinson) e Jack Fawcett (Tom Holland) estão na Amazônia em busca de uma civilização evoluída que teria tido espaço por ali. Assim é Z – A cidade perdida, novo filme de James Gray e que traz Sienna Miller no elenco.
A trajetória do trio não é das mais fáceis. A comunidade científica não dá o menor crédito para as pesquisas deles. Os índios não acham nada legal ter as terras invadidas por exploradores brancos. E para piorar: o local onde estaria tal civilização simplesmente desaparece após algumas visitas.

O cinema americano está acostumado a retratar progressistas dispostos a dizimar os índios, caso seja preciso dentro das ambições deles. Mas em Z – A cidade perdida não é assim. Fawcett defende os nativos, busca um diálogo com eles e diz aos cientistas britânicos e americanos que os índios são os verdadeiros donos das terras amazônicas. Longe de ser um herói pró-indígenas (o que ele quer na verdade é ter aliados na procura pela cidade Z), Fawcett não medirá esforços para achar a própria Eldorado e provar para todos quem estava com a razão desde o início.


Projeto: Aldeia nas escolas promoveu um encontro a diferentes culturas

Por Márcio Call


A maioria das crianças que mora nas cidades só vê índios em duas situações: ou nos livros de história que contam a descoberta do Brasil ou, então, quando encontram com algum deles vendendo artesanato pelas ruas. E, mesmo assim, costumam ignorá-los, até por desconhecimento de que existem tribos que, a duras penas, continuam mantendo sua identidade e sua cultura. Por isso, a importância de projetos como o que foi desenvolvido pelo produtor cultural Márcio Call de Maricá-RJ, denominado de "Um pedacinho da Aldeia nas escolas"

Pela primeira vez as crianças _ e muitos pais e professores também _  puderam ver de perto e conhecer como é a cultura de uma das etnias indígenas que ainda povoam Rio de Janeiro. As escolas receberam a visita de índios Guarani vindos da aldeia Tekoa Ka'aguy Hovy Porã (Mata Verde Bonita) no município de São José do Imbassaí, Maricá-RJ. Entre eles, vieram algumas crianças indígenas, que por algumas horas puderam conviver com os alunos, todos muito curiosos com a novidade na escola. Uma mistura bonita de raças e costumes e de respeito às diferenças.

Os Guarani mostraram um pouco de sua cultura por meio das danças típicas, explicando para a comunidade escolar que elas são usadas nos rituais para pedir (ou celebrar) as boas safras e as boas pescarias, para homenagear os antepassados e até para espantar as doenças. Tradições antigas que são passadas de geração em geração. Nas escolas, os índios (inclusive os pequenos) da aldeia, dançaram para agradecer a hospitalidade e a oportunidade de mostrar um pouco de sua cultura milenar.

Os alunos tiveram a oportunidade também de conhecer o artesanato produzido pelos Guarani. Arco e flecha, tão presente no imaginário popular quando se fala em indígenas, foi o brinquedo preferido dos meninos, mas os instrumentos musicais como os chocalhos também fizeram sucesso. Cestarias e objetos de decoração em madeira, confeccionados principalmente pelas mulheres da aldeia, estavam à venda, pois ajudam a complementar a renda familiar. Todas as crianças queriam sentir-se um pouco indiazinhas também.  ''Momentos encantadores e inesquecíveis, que proporcionaram um novo olhar, além de ensinar o respeito, a troca, o carinho e a amizade''.  Vida longa ao projeto, que tem por objetivo conhecer e reconhecer a diversidade étnica, cultural e social brasileira. 


         



Produtor do projeto: 
Aldeia nas escolas 
por Márcio Call


Indígenas venezuelanos realizam ritual em abrigado de Manaus

A crise na Venezuela transformou a vida dos indígenas, na aldeia os Warao não tinham alimentação e nem água

Anibal começa os preparativos para o ritual de limpeza. Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia

A assessora técnica da Fundação Estadual do Índio (FEI), Yawara-t Marulanda, acompanha o caso dos Warao desde o início. Ela contou ao Portal Amazônia que o ritual de limpeza é realizado para a prosperidade do local. “O ritual representa o momento com os nossos ancestrais, onde os indígenas pedem saúde e agradecem aos objetivos alcançados. Geralmente, a cerimônia é realizada em um lugar aberta e com uma fogueira, mas eles fizeram questão de realizar as orações”, explicou Yawara-t que também é indígena e pertence a etnia Kokana.
Já o venezuelano Anibal Perez que realizou o ritual de limpeza nas instalações do Serviço de Acolhimento Institucional de Adultos e Famílias aproveitou a oportunidade para agradecer ao carinho dos manauras. “Não é fácil, nem para nós e muito menos para vocês, mas o nosso povo se sentiu acolhido em Manaus. Quando chegamos aqui não sabíamos para onde ir, então improvisamos uma moradia perto da rodoviária. As autoridades também se ofereceram para ajudar e conseguimos um teto confortável”, afirmou. 
A crise na Venezuela transformou a vida dos indígenas, na aldeia os Warao não tinham alimentação e nem água. “Para muitos, a única opção era fugir da Venezuela. Amamos o nosso país, mas sair de lá era questão de sobrevivência”, destacou Perez. De acordo com o indígena, as condições dos venezuelanos em Manaus nem se compara com a situação que vivemos lá. “Está muito ruim. Graças a Deus que nossas famílias conseguiram vir para o Amazonas”, disse.

Acompanhamento
Para a titular da Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos (Sejusc), Graça Prola, os venezuelanos poderão sair de uma área de risco. "Estamos acompanhando a situação dos indígenas desde dezembro de 2016, quando eles começaram a chegar em Manaus. Esse abrigo tem a capacidade para 300 pessoas, ou seja, ainda tem possibilidade de mais pessoas poderem ficar no prédio. O abrigo é uma atividade de caráter emergencial, porque os abrigos via de regra são pequenos, então a grande população estamos trabalhando nesses espaços maiores", afirmou. 
Além de moradia, os indígenas Warao receberão alimentação, atendimento de saúde e cursos do  Centro de Educação Tecnológica do Amazonas (Cetam). "Estamos trabalhando junto com eles um cardápio para adequar os costumes deles, mas claro dentro de um contexto de segurança alimentar e nutricional. Vamos também trazer professores do Cetam para oferecer cursos de português aos indígenas, principalmente para aqueles que desejam conseguir um emprego. Desde o início, os Warao também recebem atendimento médico, principalmente as crianças", contou Graça. 
Plano
As medidas fazem parte do Plano Emergencial de Ajuda Humanitária aos venezuelanos que estão em Manaus fugindo da crise política e econômica da Venezuela, em especial indígenas da tribo Warao. O plano tem à frente os seguintes órgãos: Secretaria Estadual de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc), Secretaria Estadual de Assistência Social (Seas), Fundação Estadual do Índio (FEI), Fundo de Promoção Social (FPS), do Governo do Amazonas, Secretaria Municipal da Mulher Assistência Social e Direitos Humanos (Semmasdh) e Secretaria Municipal de Saúde (Semsa).

Indígenas com mais de 60 anos tiram RG pela primeira vez em MS

Defensoria Pública estima que mais de 4 mil indígenas em MS não têm RG. Mutirão em Ponta Porã, atende a população para fazer o documento.

Digitais são cadastradas para emissão do documento de identidade (Foto: Reprodução/ TV Morena)


ndígenas com mais de 60 anos estão tirando o documento de identidade, em Mato Grosso do Sul, pela primeira vez. Em Ponta Porã, um mutirão de cidadania está sendo realizado pra tirar estes e outros índios da situação de sub-registro.
O indígena Valdomiro Velasques vai tirar o RG pela primeira vez aos 65 anos. “Porque eu sei que sem documento é só animal, né?” afirma Velasques.
Velasques faz parte dos 500 indígenas selecionados para o mutirão do Comitê Estadual para Erradicação do Sub-Registro Civil (Cesrad). São atendidas comunidades de Japorã, Coronel Sapucaia, Aral Moreira e Amambai.
“A documentação é essencial para que eles exerçam a cidadania, que possam exercer os seus direitos e ter acesso a diversos programas sociais e aí a sua situação como cidadão está regulamentada, regularizada e definida,” explica o defensor público Marcelo Marino da Silva.
A prioridade desse mutirão é atender quem precisa do RG para poder retirar a Carteira de Trabalho. Um primeiro passo para novas oportunidades.
“Até então a gente não existe. Então a documentação vem trazer aí esse benefício pra gente. Mostrar que os índios estão aí para acompanhar a sociedade. Isso é uma maneira da juventude seguir na carreira estudantil como na procura de emprego também,” conta o professor indígena Ismael Morel.
O indígena Cide Velasquez é líder da aldeia Taquapiri, em Coronel Sapucaia, para onde foram destinadas 100 emissões. Mas, ele explica que muita gente ficou de fora.
“Na minha aldeia tem mais de 400 indígenas que tem registro preparado no mutirão e agora está sem identidade. Então tem 100 pessoas aqui da aldeia Taquapiri e tá faltando mais de 300 pessoas, tá parado esperando também uma oportunidade,” fala.
O desafio ainda é grande. Só em Amambai tem 8 mil indígenas. A estimativa da Defensoria Pública é que metade não tenha o RG.

RAONI E STING. Ambos percorreram diversas partes do mundo em defesa da floresta Amazônica e do povo indígena

O país, mais do que nunca, acha-se mergulhado em águas malcheirosas da corrupção, “enquanto homens exercem podres poderes” – verso de uma das músicas cantadas no último domingo de maio por Caetano Veloso na Praia de Copacabana, no “Rio Diretas Já”. Em meio ao caos político, faz bem lembrar da dupla Raoni e Sting, formada em Altamira, Pará, em 1989. Em fins do ano passado, o líder indígena Metuktire e o cantor britânico se reencontraram e discutiram a hidrelétrica de Belo Monte.
Por um longo tempo, Raoni e Sting percorreram diversas partes do mundo para denunciar a destruição da floresta Amazônica e o descaso do governo brasileiro com os povos indígenas, até conseguirem obter recursos para fundar a Rainforest Foundation, instituição voltada para conservação ambiental e demarcação das terras indígenas.
Ainda que não andem mais por este mundo afora em campanha em prol da floresta Amazônica, Raoni e Sting podem ser considerados velhos amigos, aos moldes do que escreveu Milan Kundera sobre a amizade em “A Identidade”. De volta ao Brasil, Sting encontrou um cenário de incertezas ainda maior para os povos indígenas: em Brasília, no Acampamento Terra Livre, a polícia cometeu atos de violência contra mais de 1.500 lideranças indígenas, atingidas por bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha; o povo Munduruku, com bordunas, arcos e flechas, interditou um trecho da Transamazônica, onde há o escoamento da produção de soja, em represália ao descaso do governo em demarcar suas terras e ao desmonte da Funai; no Maranhão, o povo Gamela foi vítima dos produtores rurais que cobiçam suas terras; em Brasília, foi prorrogado o funcionamento da Comissão Parlamentar de Inquérito Funai-Incra. Como se não bastasse, o Conselho de Direitos Humanos da ONU recomendou ao Brasil deter violações contra os povos indígenas, defensores dos direitos humanos, populações pobres e carcerárias.  
Como na canção “Podres Poderes”, pergunta-se: “será que nunca faremos senão confirmar a incompetência da América católica que sempre precisará de ridículos tiranos”?

Rapaz pula em rio para tirar selfie com sucuri de 5 metros

Um homem ficou a apenas alguns metros de uma sucuri em um rio do Amazonas para tirar uma selfie


Cobras como a sucuri podem ultrapassar facilmente os 5 metros de comprimento, e o seu tamanho e força fazem com que elas possam, por exemplo, engolir um homem.
Mas por causa de uma boa foto, um pecuarista não se importou com esse risco durante um passeio em Nhamundá (AM).

Elas alcançam de 7 a 8 metros. Já teve registros de sucuris maiores de até 10 metros. Apesar de não serem venenosas, elas mordem e podem afogar uma pessoa, por ter muita força", segundo disse Luciana Frazão, da Universidade Federal do Amazonas,
Publicada no último sábado, 27, a postagem repercutiu nas redes sociais pelo risco que o jovem de 22 anos correu ao ficar tão próximo de uma cobra como esta.
Ele disse que viu o animal, de cerca de 5 metros, na beira do rio e foi se aproximando aos poucos, ainda sem o celular. Como a cobra não reagiu, ele voltou para buscar o aparelho e tirar as fotos.
“Peguei o celular e tirei várias selfies. Quando olhei para trás, vi que já estava muito perto, mas aí ela entrou na água e saiu”, afirmou para o mesmo site.
"A sucuri é a maior serpente brasileira. Quando está no seu ambiente aquático, ela tem uma agilidade incrível, bastante desenvoltura é muito rápida. Uma mordida dela pode machucar muito", disse Giuseppe Puorto, diretor do Instituto Butantan, para a Folha.

CPI da Funai e do Incra aprova texto final com 67 pedidos de indiciamento



o Incra na Câmara aprovou nesta terça-feira (30) o relatório final do deputado Nilson Leitão (PSDB-MT), que propõe o indiciamento de 67 pessoas. Todos os destaques, com sugestões de mudanças no texto, foram rejeitados.



Desde a aprovação do texto-base, no dia 17, três reuniões para tentar concluir a votação do parecer foram canceladas. O prazo final da comissão se encerraria na última sexta-feira (26), mas o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), prorrogou os trabalhos por mais 30 dias.


Nesta terça, os parlamentares da base derrubaram dois destaques ao texto apresentados pela bancada do PT. Um deles eliminaria o capítulo que contém os pedidos de indiciamentos feitos pelo relator.


Outro destaque retiraria do texto os projetos sugeridos pela CPI. Um deles regulamenta o artigo constitucional que estabelece que só será considerada terra indígena aquelas ocupadas por índios no dia da promulgação da Constituição, 5 de outubro de 1988.


O relator retirou do parecer a proposta de encerrar as atividades da Funai. Ele chegou a incluir a sugestão no texto, mas não manteve a mudança no relatório final.


A comissão parlamentar de inquérito investigou a Fundação Nacional do Índio (Funai) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), principalmente em relação aos critérios de demarcação de terras indígenas e quilombolas, assim como os conflitos agrários decorrentes desse processo.


O colegiado foi instalado em novembro do ano passado, mas o grupo também aproveitou o trabalho de outra CPI com o mesmo tema que funcionou entre novembro de 2015 e agosto de 2016, sem ter aprovado um relatório.


A CPI foi presidida por Alceu Moreira (PMDB-RS), que é membro da Frente Parlamentar Mista da Agropecuária, também conhecida como bancada ruralista. O relator da CPI, Nilson Leitão, é presidente da bancada ruralista.




Indiciamentos




O relatório final tem quase 3,4 mil páginas. O total de pedidos de indiciamentos e encaminhamentos é de 67, envolvendo procuradores, antropólogos, indígenas, servidores da Funai, do Incra, pessoas ligadas à organização Centro de Trabalho Indigenista (CTI) e ao Conselho Indigenista Missionário (Cimi), procuradores da República, além do ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo.


O petista é acusado de ter cometido crimes como associação criminosa, apoio a ações de invasão da propriedade e retardamento de atos de ofício para satisfazer interesse, além de improbidade administrativa.


O relatório chegou a conter mais de 100 pedidos de indiciamentos, mas o relator decidiu retirar da lista procuradores, pessoas que teriam cometido crime de improbidade administrativa e dois citados que já faleceram.


Com a aprovação pela CPI, os pedidos de indiciamento serão encaminhados ao Ministério Público e órgãos competentes para o aprofundamento das investigações ou o eventual oferecimento de denúncia. No caso dos procuradores, a CPI não pede indiciamento, mas apenas faz encaminhamentos aos órgãos competentes.


O relatório também propõe a tramitação de um projeto de lei que regulamente, de forma objetiva, o que é ocupação tradicional. Quanto ao uso do solo em terras indígenas, o relator defende que cabe ao índio decidir a utilização da terra para fins comerciais e produtivos e a celebração de contratos.




Nova Funai




Quando apresentou o relatório, Nilson Leitão sugeriu o encerramento das atividades da Funai, com a criação de um novo órgão. Após críticas da oposição, o relator alterou o texto passou a propor apenas uma reestruturação da Funai.


Ele defende que todos os serviços relacionados aos indígenas, inclusive saúde e educação, sejam centralizados no órgão que, para ele, poderia ganhar status de secretaria nacional ou de ministério.


“Queremos que tudo que trate do índio esteja em uma estrutura só, grande, forte, competente, e não como é hoje, apenas para cuidar de demarcação”, explicou.


O relatório pede ainda que sejam anulados ou revogados 21 decretos editados pela então presidente Dilma Rousseff no dia 1º de abril de 2016 que declararam imóveis rurais como de interesse social para fins de reforma agrária.


Partidos de oposição apresentaram um relatório paralelo em que acusam a bancada ruralista na Câmara de produzir um parecer com o objetivo de "perseguir, criminalizar e intimidar pessoas, entidades e movimentos que lutam em defesa da reforma agrária e da demarcação das terras indígenas e quilombolas". "Essa CPI representa o que há de mais retrógrado no agrário brasileiro", diz trecho do relatório.


O deputado Nilto Tatto (PT-SP), que é um dos autores do parecer, classificou a CPI de "enviesada" por ter "engavetado" requerimentos apresentados pela oposição. Na avaliação dele, as propostas contidas no relatório de Leitão, se colocadas em prática, vão "agravar o conflito no campo". Entre as sugestões feitas pelo deputado petista em seu relatório paralelo, ele defende a retomada da Ouvidoria Agrária Nacional com caráter independente do Incra.




Demarcação de terras




O relatório aponta a autoria ou participação de pessoas em diversas irregularidades, como invasões e a atuação fraudulenta para a delimitação e demarcação de áreas.


No documento, Nilson Leitão sustenta que a CPI identificou diversos problemas, como o uso de laudos fraudulentos para embasar a demarcação de terras indígenas e quilombolas em locais que não seriam de ocupação tradicional, isto é, quando são efetivamente habitados por esses povos.


O relator critica ainda o critério de auto-atribuição para a identificação das comunidades remanescentes de quilombos por não haver uma checagem da informação. Ele diz ainda que a demarcação de terras se baseia em laudos parciais e diz que o trabalho dos antropólogos “deve ser científico, não militante”.




Reforma agrária




Em relação à reforma agrária, o relator diz ter identificado “um alarmante número de irregularidades” no Incra.


Entre os problemas apontados por ele, está a delegação a lideranças particulares a atribuição de escolher a propriedade que será alvo de reforma agrária e quem será assentado.


Segundo o relator, essas lideranças particulares, em "conluio" com servidores do Incra, passaram a vender o “direito” de ser assentado com o pagamento de mensalidades a essas lideranças, além da venda irregular de lotes.


Outra fonte de renda para essas “quadrilhas”, de acordo com o relatório, tem sido a própria madeira extraída dos assentamentos. Para ele, a política da reforma agrária se transformou em uma “tragédia”.


Segundo Leitão, as invasões de propriedades rurais representam um “expediente ardiloso e que tangencia a guerra revolucionária”.


O deputado diz ainda que ao deixar de punir os invasores se cria um pretexto para “uma anacrônica ditadura militar com base nas envelhecidas ideias marxistas”.




ONGs




O relatório traz o argumento de que as demarcações devem ter como critério os locais de ocupação tradicional indígena. Segundo o texto, muitas vezes são apresentados "laudos fraudulentos, em conluio e confusão de interesses com antropólogos e ONGs, muitas vezes, respaldados, juridicamente, por segmentos do Ministério Público Federal".


O relator ainda questiona a necessidade de se fazer mais demarcações de terras indígenas sob o argumento de que os problemas dos índios não se resumem à questão da terra e “grande parcela do território brasileiro já foi reservada para as populações indígenas”.


“De fato, os próprios dados oficiais colocam em xeque o afã demarcatório em detrimento de outras políticas em favor da dignidade indígena, corroborando o já afirmado”, escreveu.


Para embasar a sua tese, ele pondera que a população indígena do Brasil é composta por 817.963 índios, ocupando 117 milhões de hectares, que, segundo o parecer, representam 13,7% do território nacional.

Indígenas vão à Europa denunciar genocídio de guaranis-kaiowás


Bruxelas – O líder da etnia guarani-kaiowá, Ladio Verón, que vive no estado de Mato Grosso do Sul, denunciou nesta terça-feira no Parlamento Europeu que seu povo indígena sofreu “quase 400 assassinatos desde o ano de 2003”.






“Está ocorrendo um genocídio contra os guaranis-kaiowás devido ao negócio sobre nossas terras”, denunciou em uma conferência no Parlamento Europeu Verón, em representação de uma comunidade composta por cerca de 50 mil pessoas.

“Estão matando nosso povo com balas e com veneno, e tudo porque querem ocupar nossas terras para o agronegócio. Há grandes indústrias que roubam nossas terras e o governo brasileiro não faz nada para que a lei seja cumprida”, acrescentou Verón.

A conferência foi organizada por vários eurodeputados, entre eles Xavier Benito, do grupo esquerdista espanhol Podemos, que promoveu no ano passado uma proposta de resolução no Parlamento Europeu sobre a proteção dos direitos humanos no Brasil e a atividade das empresas multinacionais.

Benito afirmou que “existe uma necessidade urgente de agir para frear este genocídio” e que “a UE e o Parlamento Europeu têm que tomar medidas para pôr fim à ocupação de terras para a monocultura por parte das multinacionais”.

Parceria entre governo, MPT e empresas gera dois mil empregos a índios do MS


Uma parceria entre a Fundação do Trabalho de Mato Grosso do Sul (Funtrab), Ministério Público do Trabalho (MPT) e empresas privadas está contribuindo para inserir os índios do Estado no mercado de trabalho. A previsão é de que, por ano, cerca de 2 mil terenas e guaranis sejam contratados para trabalhar nas safras, principalmente de frutas. Levando-se em consideração que cada família indígena é composto por 5 pessoas, cerca de 10 mil pessoas serão beneficiadas por essa iniciativa.
Graças a essa união de esforços, mais de 500 indígenas terena e guarani trabalharam, neste ano, na colheita de maçã nas lavouras da empresa Aliprandini, com sede em Vacaria, Rio Grande do Sul.  A empresa é detentora da marca Frutini, e fornece frutas e legumes para praticamente todo o Brasil. Por ano, são colhidas aproximadamente 20 mil toneladas de maçã.“Eles nunca tiveram essa oportunidade e estão contentes. Afinal de contas, não é fácil arranjar uma colocação assim”, comenta José Alberto Thiery, coordenador da unidade da Funtrab em Dourados. A Fundação é a responsável pela seleção da mão de obra e da elaboração dos contratos entre índios e empresas.

Para o procurador do Trabalho, Jeferson Pereira, que participou da formalização dessa parceria, milhares de indígenas de Mato Grosso do Sul devem ser beneficiados com a articulação entre o MPT, Governo do Estado e iniciativa privada. “A participação da Funtrab é fundamental, uma vez que garante que os trabalhadores saiam do Estado protegidos pelos contratos e sabendo quanto irão receber pelo serviço”, afirmou.
O procurador enfatizou que “essa estratégia é fruto dos entendimentos realizados junto a empresas como a Rasip, Agrícola Fraiburgo e Fischer, que concordaram com essa forma de contratação, elevando a quantidade de trabalhadores indígenas empregados anualmente para mais de 2 mil”.Bossardi explica que mão-de-obra para esse serviço na região é difícil e ele enfatiza que outra vantagem dessa parceria, é que a contratação é feita por grupos, embora os contratos sejam individuais – no total a Aliprandini contratou neste ano 540 terenas e guaranis, mas divididos em turmas. E a integração tem sido também muito positiva, a ponto da empresa realizar campeonato de futebol entre os indígenas, com direito e troféu.
“A gente precisa muito desse apoio para as nossas famílias”, afirma o terena Ivanilson Machado Peixoto, da Aldeia Limão Verde, em Aquidauana. Pai de três filhos, ele diz que nesta safra 46 moradores da aldeia foram trabalhar na colheita da maçã nas lavouras da Aliprandini.
Peixoto explica que durante o ano os moradores da Limão Verde se dedicam a lavoura própria e, no período da safra da empresa de Vacaria, aproveitam para ganhar uma renda extra. O dinheiro conquistado é investido principalmente na melhoria da habitação, compra de roupas para os filhos, aquisição de animais para cria e insumos para a lavoura. Ele lembra que antes dessa parceria, os terenas viviam sem emprego, pois a partir de 2008 as usinas de cana-de-açúcar deixaram de abrir vagas para indígenas. Em média, eles trabalham de dois a três meses na colheita de frutas na região Sul do país.
A ação vai de encontro à orientação dada pelo governador Reinaldo Azambuja. “As comunidades indígenas precisam ser melhor atendidas, precisam do apoio do governo, com uma política pública duradoura, para todas as etnias. O governo não tem que ter lado, deve governar para todos”, tem afirmado Reinaldo Azambuja.E como parte dessa política, no dia 29 de maio, o Comitê Gestor Estadual para Erradicação do Sub-registro Civil de Nascimento e Acesso à Documentação Básica (CEESRAD/MS) estará na região Sul para atender a comunidade indígena dos municípios de Amambai, Aral Moreira, Coronel Sapucaia e Japorã. Serão emitidos 500 documentos de Registro Geral (RG). A falta de documento é um dos problemas enfrentados pelos índios na busca de uma colocação no mercado de trabalho. Essa ação é coordenada pela Secretaria de Estado de Direitos Humanos, Assistência Social e Trabalho (Sedhast).